{"id":1283,"date":"2022-08-23T11:05:25","date_gmt":"2022-08-23T14:05:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.setasistemas.com.br\/blog\/?p=1283"},"modified":"2022-11-06T10:49:55","modified_gmt":"2022-11-06T13:49:55","slug":"o-aluno-colou-e-hora-de-discutir-avaliacao-e-regras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.setasistemas.com.br\/blog\/2022\/08\/23\/o-aluno-colou-e-hora-de-discutir-avaliacao-e-regras\/","title":{"rendered":"O aluno colou? \u00c9 hora de discutir avalia\u00e7\u00e3o. E regras"},"content":{"rendered":"\n<p>As t\u00e1ticas da cola s\u00e3o criativas: pedacinhos de papel pregados na sola do sapato ou camuflados em canetas, mangas de blusa ou na aba do bon\u00e9. F\u00f3rmulas matem\u00e1ticas ou textos min\u00fasculos tamb\u00e9m s\u00e3o escritos pelos adolescentes na parede ou num cantinho da carteira. Voc\u00ea pode at\u00e9 tentar descobrir e reprimir as variadas estrat\u00e9gias &#8211; algumas bem antigas, outras at\u00e9 tecnol\u00f3gicas. Mas n\u00e3o \u00e9 assim que o problema vai se resolver. Se seus alunos est\u00e3o sempre colando, a primeira provid\u00eancia \u00e9 entender o porqu\u00ea. Talvez eles estejam manifestando inseguran\u00e7a, mostrando que n\u00e3o se ajustam a um ensino que privilegia a &#8220;decoreba&#8221; ou se recusando a quebrar a cabe\u00e7a para provar que sabem coisas pelas quais n\u00e3o se interessam. De qualquer modo, essa burla \u00e0s regras mostra que n\u00e3o h\u00e1 compromisso com as normas escolares e que falta efici\u00eancia ao sistema de avalia\u00e7\u00e3o.<br><br>Entre os motivos est\u00e3o a exig\u00eancia de decorar f\u00f3rmulas e a aplica\u00e7\u00e3o apenas de provas como forma de verificar o avan\u00e7o da turma. Testes de m\u00faltipla escolha, \u00e9 bom lembrar, s\u00e3o um convite a esse tipo de fraude. O primeiro ant\u00eddoto para desestimular a c\u00f3pia &#8211; seja de um papelzinho, do caderno ou do vizinho &#8211; est\u00e1 na forma como a escola encara a avalia\u00e7\u00e3o.<br><br>&#8220;Se o professor avalia continuamente, passando tarefas menores, gradativas e seq\u00fcenciais, pode verificar com clareza a aprendizagem do aluno em v\u00e1rios momentos e de forma complementar&#8221;, diz a consultora Jussara Hoffmann, de Porto Alegre. A especialista em avalia\u00e7\u00e3o defende em teoria o que j\u00e1 comprovou quando lecionava L\u00edngua Portuguesa. &#8220;Eu evitava a cola passando tarefas como uma reda\u00e7\u00e3o, que propiciavam ao aluno responder de forma criativa e singular.&#8221;<br><br>Na Escola Municipal Barbosa Romeo, em Salvador, os professores n\u00e3o reclamam de cola. O motivo \u00e9 a proposta pedag\u00f3gica da escola, que prev\u00ea como princ\u00edpios valorizar o conhecimento pr\u00e9vio do aluno e contribuir para que ele se torne ativo e cr\u00edtico. &#8220;N\u00e3o queremos que os estudantes s\u00f3 ou\u00e7am, memorizem e respondam&#8221;, diz Lane Cristina Fran\u00e7a Oliveira, professora de Hist\u00f3ria e Geografia. A alternativa a esse sistema \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o processual, feita no dia-a-dia, sem necessariamente haver a aplica\u00e7\u00e3o de testes. Os projetos propostos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a vida e a cultura dos jovens.<br><br><strong>Como evitar as fraudes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Col\u00e9gio Monteiro Lobato, de Porto Alegre, n\u00e3o h\u00e1 mais provas. &#8220;Nosso objetivo n\u00e3o \u00e9 testar o aluno, mas realizar um diagn\u00f3stico para detectar defici\u00eancias no aprendizado e trabalhar esses pontos novamente&#8221;, explica o professor Luciano Denardin de Oliveira. Por isso, o aluno n\u00e3o v\u00ea mais raz\u00e3o para se valer do &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;. L\u00e1 s\u00f3 se avalia o que j\u00e1 foi bem trabalhado e ningu\u00e9m precisa colar f\u00f3rmulas, pois elas ficam no quadro-negro, para todo mundo ver.<br><br>A prova com consulta \u00e9 o melhor ant\u00eddoto da cola para Gustavo Bernardo, professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. &#8220;A avalia\u00e7\u00e3o que d\u00e1 margem \u00e0 cola precisa ser abolida, proporcionando uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 do professor nos alunos, mas dos alunos no pr\u00f3prio saber.&#8221;<br><br>As avalia\u00e7\u00f5es que Bernardo prop\u00f5e t\u00eam o objetivo de estimular a capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o. Durante os testes, os alunos podem consultar cadernos, livros e at\u00e9 uns aos outros, desde que n\u00e3o copiem. &#8220;E a sala n\u00e3o vira uma bagun\u00e7a.&#8221;<br><br><strong>Com a boca na botija<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo professores que procuram diversificar os instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o podem deparar com a cola em classe. Quando isso ocorria, a professora Jussara anotava o nome do estudante e mais tarde o chamava para uma conversa. Hora da bronca? Muito pelo contr\u00e1rio. O momento se transformava em um atendimento especial tanto na parte afetiva quanto cognitiva. Jussara mostrava aos alunos que era mais produtivo consult\u00e1-la do que recorrer ao colega ao lado: &#8220;\u00c0s vezes um grupo de alunos vinha \u00e0 minha mesa dizendo n\u00e3o saber resolver uma quest\u00e3o. Se fosse preciso, respondia com eles&#8221;.<br><br>Bernardo, por outro lado, n\u00e3o \u00e9 nada tolerante com a &#8220;desonestidade intelectual&#8221; da c\u00f3pia, mesmo sendo adepto de provas com consulta. Atento \u00e0 facilidade propiciada pela internet, ele localiza informa\u00e7\u00f5es roubadas de sites e d\u00e1 zero ao aluno pregui\u00e7oso. &#8220;Se uma situa\u00e7\u00e3o clara de desonestidade se apresenta, a repress\u00e3o deve ser feita com rigor&#8221;, argumenta. Para ele, os adolescentes precisam de regras e escola frouxa com as pr\u00f3prias leis ensina o aluno a colar. Isso n\u00e3o significa que voc\u00ea deve se transformar em detetive, investigador ou carrasco. Vale dizer que quanto mais autorit\u00e1rio o professor \u00e9 com a turma, maior a probabilidade de ser v\u00edtima da cola.<br><br>Fazer vista grossa tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda: se voc\u00ea finge que n\u00e3o v\u00ea, o aluno percebe o descaso e perde o respeito. O momento \u00e9 de discutir com a classe o que a cola significa e debater a transpar\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es. Bernardo aposta na abertura para o di\u00e1logo. Os alunos dele podem, por exemplo, reclamar da nota de uma avalia\u00e7\u00e3o, desde que o fa\u00e7am por escrito e assim exer\u00e7am a capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o. &#8220;Muitas vezes o resultado disso \u00e9 melhor do que a prova.&#8221;<br><br>No Col\u00e9gio Estadual Em\u00edlio de Menezes, em Curitiba, a hora da prova n\u00e3o \u00e9 momento de terrorismo, de acordo com o diretor Alcides Jos\u00e9 de Carvalho. &#8220;Damos mais \u00eanfase \u00e0 quest\u00e3o formativa e valorizamos o progresso do aluno independentemente de ele ser o &#8216;melhor&#8217; ou o &#8216;pior&#8217;, da turma.&#8221; Por isso, as situa\u00e7\u00f5es de cola n\u00e3o s\u00e3o freq\u00fcentes.<br><br>Quando algum problema desse tipo acontece, o aluno \u00e9 encaminhado para a orienta\u00e7\u00e3o educacional. &#8220;Mostramos que a atitude n\u00e3o era correta&#8221;, diz o diretor, enfatizando o cuidado de falar da atitude e n\u00e3o da pessoa. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 o aluno que est\u00e1 errado, e sim o que ele fez. &#8220;Temos uma grande fun\u00e7\u00e3o social de preparar o aluno para n\u00e3o compactuar com o modelo da chamada &#8216;lei de Gerson&#8217;, que defende que o importante \u00e9 levar vantagem em tudo.&#8221;<br><br><strong>Li\u00e7\u00e3o para o aluno e o professor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dos padr\u00f5es vigentes, a cola \u00e9 um ato desonesto, assim como a mentira. Mas, para Jos\u00e9 S\u00e9rgio de Carvalho, professor de Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo, quebrar regras nem sempre \u00e9 sin\u00f4nimo de falta de \u00e9tica. Consultar anota\u00e7\u00f5es na hora da prova, para ele, n\u00e3o \u00e9 motivo para criar um bicho-de-sete-cabe\u00e7as. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 quem tenha freq\u00fcentado uma sala de aula sem colar ou cometer algum outro desvio das normas previstas pela escola.&#8221;<br><br>A cola \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o potencialmente educadora, na opini\u00e3o de Carvalho. &#8220;A aplica\u00e7\u00e3o de uma regra bem feita educa mais do que uma conversa.&#8221; Para que isso aconte\u00e7a, professor e alunos, juntos, devem ter discutido quais s\u00e3o as regras referentes ao momento da realiza\u00e7\u00e3o das provas e as poss\u00edveis puni\u00e7\u00f5es a quem transgredi-las. Assim, o aluno saber\u00e1, de antem\u00e3o, o risco que corre ao descumprir o combinado. Se pego em flagrante, deve ser devidamente punido. &#8220;Socr\u00e1tes j\u00e1 dizia que a pena justa \u00e9 aquela adequada ao delito e a quem o cometeu&#8221;, cita Carvalho.<br><br>Quando a fraude ocorre e \u00e9 descoberta \u00e9 momento tamb\u00e9m de o professor refletir: o fato mostra que o aluno n\u00e3o est\u00e1 seguro. Mesmo sem ter aprendido, ele finge que sabe para n\u00e3o ser punido. &#8220;Se o estudante faz de conta que entendeu, o professor n\u00e3o fica sabendo qual a sua real condi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode ajud\u00e1-lo&#8221;, diz Jussara Hoffmann. A cola, ela finaliza, \u00e9 resultado de uma aprendizagem n\u00e3o significativa. &#8220;O aluno n\u00e3o cola aquilo que entende.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refletir para entender a cola<\/strong><br><br>Se a cola aconteceu em sua classe, talvez esse seja o momento de voc\u00ea pensar sobre o sistema de trabalho e de avalia\u00e7\u00e3o que vem adotando. Responder \u00e0s perguntas abaixo pode ser uma boa forma de buscar solu\u00e7\u00f5es de fato eficientes para o problema.<br><br>. Pese o que voc\u00ea est\u00e1 exigindo nas provas. Para se sair bem nelas o aluno precisa decorar f\u00f3rmulas e datas? O conte\u00fado que est\u00e1 sendo cobrado foi bem compreendido pela turma?<br><br>. Pense e discuta com colegas, alunos e dire\u00e7\u00e3o se o m\u00e9todo de avalia\u00e7\u00e3o adotado pela escola \u00e9 justo e eficiente. \u00c9 apenas a nota da prova que define o n\u00edvel de aprendizagem da turma ou outras formas de avalia\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo levadas em conta?<br><br>. Que import\u00e2ncia voc\u00ea d\u00e1 \u00e0 nota da prova: \u00e9 sempre um atestado de ignor\u00e2ncia ou de intelig\u00eancia? Ou voc\u00ea considera a prova uma forma de reorientar as suas a\u00e7\u00f5es?<br><br>. Que tal olhar sem preconceito para o aluno que foi pego colando e perguntar: por que fez isso? Teve um comportamento desonesto pura e simplesmente ou parecia inseguro e nervoso por n\u00e3o ter estudado direito? \u00c0s vezes o pavor \u00e9 tanto que o aluno esquece tudo que estudou. Ser\u00e1 que ele necessita de ajuda ou voc\u00ea precisa repensar a avalia\u00e7\u00e3o?<br><br>. Quando boa parte da turma tirou nota baixa, voc\u00ea aproveita para fazer uma auto-avalia\u00e7\u00e3o ou entende que o problema est\u00e1 na incapacidade de aprendizagem deles?<\/p>\n\n\n\n<p>. H\u00e1 transpar\u00eancia na sua rela\u00e7\u00e3o com os alunos, com espa\u00e7o, por exemplo, para discutir a nota?<br><br>. Antigamente, o professor podia sair da sala durante a prova, porque confiava nos alunos. Hoje, raros t\u00eam essa atitude. Imagine como seria se voc\u00ea deixasse seus alunos sozinhos durante a prova. Para voc\u00ea, isso mudaria o resultado da avalia\u00e7\u00e3o?<br><br>. Sua escola cria espa\u00e7o para a discuss\u00e3o da \u00e9tica? Sabemos que o comportamento \u00e9tico chega a ser desestimulado na nossa sociedade competitiva e desigual. E se voc\u00ea transformasse o problema no mote de uma discuss\u00e3o?<br><br>. Voc\u00ea sabia que uma prova n\u00e3o prova nada? Uma cola tamb\u00e9m n\u00e3o. Se o aluno faz um lembrete n\u00e3o indica que ele \u00e9 mau car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Nova Escola<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Melhor do que redobrar a vigil\u00e2ncia \u00e9 diversificar os meios de checar a aprendizagem. 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